Corrupção, Poder e Psicologia Coletiva: por que sociedades toleram o que condenam?

Corrupção, Poder e Psicologia Coletiva: por que sociedades toleram o que condenam?

Corrupção, Poder e Psicologia Coletiva: por que sociedades toleram o que condenam?

Por Ivo Peron 

 

A corrupção no Brasil não é um fenômeno ideológico. É estrutural. Ela atravessou governos de diferentes partidos e espectros políticos, revelando um problema sistêmico — não exclusivo.

Para compreender isso com maturidade, é preciso sair da paixão e entrar na análise.

1. Dados históricos: os principais escândalos recentes

Governo Fernando Collor (1990–1992)
Caso PC Farias.
Acusações de corrupção e esquema de arrecadação ilegal.
Resultado: impeachment aprovado pelo Congresso Nacional.

 

Governo Fernando Henrique Cardoso (1995–2002)
Denúncias envolvendo compra de votos para aprovação da emenda da reeleição.
Privatizações questionadas politicamente.
Não houve condenação judicial do ex-presidente.

Governos Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010)
Mensalão (Ação Penal 470): esquema de pagamentos a parlamentares para apoio político.
Operação Lava Jato: revelou esquema bilionário de corrupção envolvendo Petrobras, empreiteiras e partidos.
Lula foi condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.
Posteriormente, as condenações foram anuladas pelo STF por questões processuais relacionadas à competência da Vara de Curitiba e suspeição do juiz. Não houve absolvição de mérito nos fatos investigados, mas anulação processual.

Governo Dilma Rousseff (2011–2016)
Continuidade das investigações da Lava Jato.
Escândalos envolvendo Petrobras e grandes empreiteiras.
Dilma sofreu impeachment por crime de responsabilidade fiscal (pedaladas fiscais), não por corrupção direta.

Governo Michel Temer (2016–2018)

Denúncias da Procuradoria-Geral da República por corrupção passiva.
Gravações envolvendo executivos da JBS.
As denúncias foram barradas pela Câmara dos Deputados.

Governo Jair Bolsonaro (2019–2022)
Investigações sobre “rachadinhas” envolvendo o senador Flávio Bolsonaro.
Caso das vacinas (Covaxin) investigado pela CPI da Pandemia.
Questionamentos sobre orçamento secreto.
O ex-presidente não foi condenado por corrupção durante o mandato, mas aliados e familiares foram alvos de investigações.

 

2. O padrão estrutural

Observa-se um padrão recorrente:
Uso de estatais como centro de articulação política.
Formação de coalizões com distribuição de cargos.
Relações próximas entre grandes empresas e poder público.
Dificuldade de ruptura interna dentro dos próprios partidos.
A corrupção, portanto, não nasce da ideologia declarada, mas da estrutura de poder concentrado e baixa accountability histórica.

 

3. Por que a população continua apoiando líderes envolvidos em escândalos?

Aqui entra a psicologia.

a) Identidade acima de fatos
Quando o eleitor associa o líder à própria identidade social (classe, religião, região ou ideologia), qualquer ataque ao líder é percebido como ataque ao grupo.

b) Viés de confirmação
O cérebro busca informações que confirmem crenças prévias. Notícias favoráveis são aceitas; notícias negativas são desacreditadas como perseguição.

c) Dependência econômica
Em contextos de vulnerabilidade, políticas de transferência de renda criam vínculo emocional legítimo. O beneficiário associa melhoria de vida ao líder, não necessariamente à política pública enquanto instituição.

d) Polarização
Ambientes polarizados reduzem análise racional. O foco deixa de ser “quem é melhor?” e passa a ser “quem impede o outro lado de vencer?”.

 

4. O fenômeno da convicção
Líderes carismáticos frequentemente demonstram alta convicção. A convicção gera percepção de verdade.

Neurocientificamente, segurança na fala ativa credibilidade, independentemente do conteúdo.

A repetição constante de uma narrativa fortalece conexões neurais — tanto em quem fala quanto em quem escuta.

5. A responsabilidade coletiva

É simplista afirmar que apenas políticos são responsáveis. Sistemas políticos refletem incentivos sociais.

Se a sociedade:
Tolera alianças questionáveis em troca de estabilidade, Prioriza benefícios imediatos sobre reformas estruturais, Valoriza discurso emocional acima de métricas objetivas, o sistema se adapta a essa demanda.

 

6. Conclusão: o problema não é apenas quem governa

O Brasil já teve escândalos sob governos de centro, esquerda e direita. Isso indica que o desafio é estrutural.

Enquanto a política for construída sobre:
 Dependência econômica,  Personalismo,  Coalizões de sobrevivência,  E baixa cultura de fiscalização cidadã, escândalos continuarão surgindo, independentemente da ideologia no poder.

A maturidade democrática começa quando o eleitor exige:

Transparência contínua, Instituições fortes, Redução de privilégios, E avaliação técnica de políticas públicas.

Não se trata de defender ou atacar líderes.

Trata-se de compreender que corrupção não é narrativa partidária é uma vulnerabilidade institucional que só será superada quando a sociedade exigir mais do que discurso.

 

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Ivo Peron
Especialista em Saúde Emocional
Hipnoterapeuta | Professor de Hipnose | Palestrante

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Contato: contato@ivoperon.com.br